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sábado, 26 de fevereiro de 2011

"Ninguém devolverá teus anos, ninguém te fará voltar a ti mesmo. Uma vez principiada, a vida segue seu curso e não reverterá nem o interromperá, não se elevará, não te avisará de sua velocidade. Transcorrerá silenciosamente, não se prolongará por ordem de um rei, nem pelo apoio do povo. Correrá tal como foi impulsionada no primeiro dia, nunca desviará seu curso, nem o retardará. Que sucederá? Tu estás ocupado, e a vida se apressa; por sua vez virá a morte, à qual deverás te entregar, queiras ou não." Sêneca

Olhos cansados, mãos que seguram o peso de um corpo também cansado, no balanço que embala o seu corpo e o de mais uma legião de guerreiros, heróis, lutadores e anônimos em mais um ônibus desses que vão em vem por essas ruas de meu Deus. E a vida parece, naquele momento, resumir-se a aguentar de pé todo aquele cansaço, esperar pela velha poltrona que o aguarda e pela solidão que lhe é reservada naquele apartamento de alguns metros quadrados. Os olhos piscam vagarosamente, a cabeça pende para o lado, sendo amparada por aquele ombro desconhecido que, em um movimento rápido, o acorda assustado. No fundo da alma, pede apenas para estar bem, são e capaz de aguentar mais um, dois, infinitos dias de rotina. Pensa no céu, aquele céu que era seu quando menino, mas que há muito não contemplava por falta de coragem, sim, coragem de desviar o olhar da rotina que o sufocava cada vez mais. Naquela leve e rara brisa que toca seu rosto, sente escorregarem os minutos e os momentos que poderia estar vivendo, mas apenas existe. Existe como mais um número economicamente ativo (ainda bem, ativo!), como mais um par de ombros que ruma cansado para o fim do dia, observando daquela janela trincada restos de um pôr-do-sol que há muito ele não vê por inteiro.
Sua vez. Navega por entre aquele mar de gente, onde mãos, braços, pernas, tudo forma um osbtáculo que parece quase invencível para seu corpo magro. Enfim, para, agradece, desce. O coletivo segue seu rumo, levando outros como ele. Pensa em descansar por um minuto. Não anda mais depressa, quer aproveitar aquela pequena caminhada de cinco minutos até chegar ao lar de uma maneira única. Decidiu que hoje daria-se um presente: faria uma rota nova. Queria ver que surpresa a vida lhe guardava - se é que guardava alguma. O céu, pensou. Há quanto tempo não se permitia isso? Depois de alguns pensamentos soltos, ousou e descobriu que estava desacostumado a olhar para cima, sempre tão preso ao chão. Viu-se menino no colo do pai, que agora descansava entre as estrelas que ele amara e ensinara o filho a amar. Zé caminhava em passos lentos, embalado por memórias.
Sons, gritos, choro, tudo muito rápido, tudo muito intenso. Um homem corre em sua direção. Finge que não vê, mas não consegue manter-se alheio ao que acontece. A hora errada, o lugar errado, amigo - é a última frase que ouve antes de um estampido ensurdecedor. Ouve passos. Uma lágrima salgada desce pelo seu rosto, sente o vermelho quente molhar suas mãos. Ousa mais uma vez olhar para o céu, em busca daquela estrela que há alguns anos, quando ainda era menino e permitia-se sonhar, ele chamara de sua. "Achei". E os olhos de mais um Zé se fecham em meio ao barulho de uma cidade que dormirá mais vazia, vazia de um Zé que ousou olhar para o céu.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Tu vens

Não preciso que anjos sussurrem no meu ouvido: sei que vens. Nem brumas, nem sinos, nem varais, nem sóis. Não preciso escutar teus sinais: posso senti-los. Não precisa chegar em uma manhã de domingo, e sei que não chegarás assim. Chegarás numa tarde quente de segunda-feira, entre compromissos e sorrisos e sons e vida, vida pulsando ao redor da tua chegada. Não ouço: sei. Sinto.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Nós

E a bagunça do nosso quarto, da nossa casa, bagunçados como seus cabelos e como os nossos sentimentos. Olhos, mãos, bocas e nós, juntos, presos, sós. A vida toda pela frente e o que importa é que nossas mãos continuem unidas, e seu sorriso no meu sorriso, como se o sol nascesse todos os dias apenas para iluminar os nossos momentos, os nossos caminhos, os nossos sonhos, a nossa vida.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ao final das contas

Distraída, caminhava simplesmente pela trivialidade que era caminhar, muitos destinos para a mente e nenhum para os pés. Eis que entre pessoas, sons, luzes, cores e vida, a viu. Perfeita em sua simplicidade. Única, bela, brilhante e só. Parou. Não conseguiria prosseguir sem levá-la consigo, porque nela se concentrava toda a perfeição do ser: ela era o que era, e era aquele momento, apenas.
Caminhou até ela, em passos tímidos, como quem se aproxima do desconhecido sem medo, mas temendo desajustar algum equilíbrio existente. Olhou-a por um tempo e pegou-a, enfim, do chão. Segurou-a firmemente entre os dedos: era sua. Custara a acreditar que a possuía. Todo aquele brilho aprisionado entre seus dedos. Enfim, sentiu-se dona daquela pequenina conta que continha o brilho de mil estrelas.
Levou-a consigo, caminhando apressada, atônita, temendo que alguém, de surpresa, a tirasse de suas mãos. Ao chegar em casa, buscou o lugar ideal para guardá-la, mas nada ali parecia capaz de suportar tamanho brilho. Até que viu a caixinha de música de sua avó, onde uma linda bailarina dançava graciosamente no centro. A pequena conta, agora, ocupava o lugar que outrora guardara valiosas jóias, mas que jamais valeriam tanto para a menina como o seu mais novo tesouro.
Ao sair de casa, no dia seguinte, parecia ainda mais distraída do que de costume. Até que, repentinamente, um desconhecido tomou sua mão e pôs nela um pequeno objeto. Sussurrou em seu ouvido palavras que agora seriam para sempre só suas e sumiu, como que envolto por uma leve brisa. Ao sentir o pequeno mundo em suas mãos, sentiu o coração palpitar. Não conseguia acreditar, era tão súbito, tão único, tão seu, aquele momento. Sentiu-se leve o restante do dia, uma leveza estranha, daquelas que, a qualquer momento, podem desaparecer. Mas não importava: para ela, cada conta aumentava um ponto na história da sua vida.
E assim seguiu vivendo, um dia após o outro, uma conta após a outra. Algumas eram grandes, brilhantes, pareciam maiores que o mundo, até. Outras, menores, mas com o brilho parecendo ainda mais intenso, concentrado naquele pequeno universo.Cada conta tinha sua história e sua importância.
Algumas haviam sido presentes de pessoas queridas; outras, desconhecidos a haviam dado até mesmo sem saber. Algumas pareciam surgir quando tudo parecia errado, outras eram pequenos frutos brilhantes do seu esforço.
E, cada vez mais, a caixinha de jóias estava mais cheia de cor, cores estas que pareciam enfeitar também o coração da menina, da moça, da mulher. Mulher que, agora, via o colorido das contas contrastar com o branco de seus cabelos. Tanta vida, tantas contas. Eram tantas que suplicavam para se unirem ainda mais.
Unidas pelo fio da vida, as contas formavam, agora, um colar multicolorido que adornava o pescoço da senhora, que dormia serenamente recostada na cadeira, embalada pela suave melodia que fazia a bailarina dançar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Subitamente

Ela, sentada em mais um ônibus dos milhões de ônibus do mundo, do universo, vivendo mais um dia daqueles milhões de dias de vida que já foram vividos por outras milhões de pessoas que já viveram, que viviam ou que iriam viver, ainda. Cabeça recostada na janela, ela existia, tentando viver. Será que vivia? Isso sempre a atormentava. Preferia dizer que existia em alguns momentos, vivia em outros, e naquele momento ela apenas existia. Mas ele a fez pensar que, naquele momento, vivia. Ele esperava, como todos fazem. Mas parecia não esperar apenas a condução que o levaria para casa, para a escola, para o trabalho, não, ele parecia esperar algo que o fizesse viver, mudar, ele que parecia esperar mais, bem mais, sabe-se lá de quê ou de quem. E ela o viu, ele, ali, parece que aquele local era realmente o ideal para encontrá-lo: se fosse em outro lugar, nunca o ar aparentemente desinteressado, alheio, sonhador, que seja, teria sido percebido pelos olhos da moça, olhos que agora brilhavam, cheios de vontade de serem notados por aqueles outros olhos que fitavam o infinito. "Vem cá, sobe nesse ônibus, senta aqui ao meu lado", ela quase disse. Desejava que ele subisse naquele mesmo ônibus, seria aquela linha que iria unir as linhas das vidas dos dois? Não sabia, apenas desejava que ele mostrasse a ela que tudo o que se passava por baixo daqueles cabelos castanhos, bagunçados por conta do vento, era verdade, que ele era realmente como ela pensava. Mas ele não ia subir, ela sabia. O garoto e seus cachos iriam ficar ali, esperando algo que não era ela. Teve, então, vontade de descer e dizer "entra na minha vida, nem que por cinco minutos". Sem que ela percebesse, ele já havia feito isso, já era parte dela, mesmo que desse jeito assim, solto, como quem não consegue se encaixar na banalidade que era aquele momento, aquilo tudo, aqueles pensamentos soltos da garota na janela.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Marca

Cabelos brancos, bem branquinhos. Um ar de quem passou pela vida de modo pleno, completo, e hoje assiste a vida alheia, embalada pelas doces lembranças que a acompanham.

- Do...doce. É, é isso que tem escrito sim. "Que seja doce".

Ouviu sussurrarem ao fundo. Jovens, sempre tão curiosos, tão espantados com coisas corriqueiras. Esquecem que ela, hoje uma testemunha de outros tempos, já fora jovem como eles, cheia de sonhos, de desejos, de segredos, de angústias, de tudo. E a maior vontade da jovem de outra época era que sua vida fosse assim, doce.
Seu pai quase desmaiou quando viu. A mãe, mesmo que a contragosto, teve que admitir que estava um charme. Uma frase, assim, no pezinho delicado da filha. "Que seja doce", dizia.
Muitos a indagavam sobre o porquê daquela frase. Mas, ora, tudo havia sido planejado há muito, até mesmo o local não havia sido aleatório. Doce. Havia lido isso em algum lugar, achou tão bonito. Doce. Tantos significados, tantos. Jovem, medo da vida. É que o futuro era incerto demais, misterioso demais. Nem mesmo o futuro dela pertencia a ela, porque ela não sabia ao certo quanto tempo ele duraria. Nunca saberia. Mas tinha certeza de uma coisa: haveria de ser doce.
Doces os caminhos a serem trilhados, as pessoas a serem conhecidas, os obstáculos a serem ultrapassados, as marcas a serem deixadas. Tudo, tudo haveria de ser doce.
E sim, como tudo havia sido doce. Até mesmo os momentos em que parecia impossível encontrar um pouco de docilidade.
Hoje, aquela marca era quase que só uma linha, no meio de tantas outras. Uma linha de ousadia, de esperança, no meio das tantas outras linhas do tempo, marcas da idade.



(Para um amigo)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O pássaro

Voar, aquele sempre havia sido o seu sonho. Como se, num bater de asas, tudo pudesse ser resolvido. Tantas vezes sentira esse impulso, uns mais, outros menos intensamente. Mas aquele pássaro engaiolado em seu peito sempre protestava, querendo liberdade, e ela sabia que a única maneira de libertá-lo plenamente era se ela mesma voasse, livre.
Só ela e o céu que outrora pertencera a Ícaro. Seriam suas asas frágeis como as dele? Do alto - quantos eram os andares? - nenhuma dúvida parecia ser capaz de trazer qualquer aflição.
O vento zunia em seus ouvidos, será que ouviria esse som ao voar? Não sabia. O som que ouvia agora era o de seu coração batendo descompassado no peito, acompanhado pelo farfalhar de asas inquieto do pássaro. O pássaro queria sair, as asas batendo, o coração batendo, o coração queria sair, ela queria voar.
Estava decidida como jamais estivera em nenhum outro momento de sua vida. Ela, que tanto queria voar, sentia apenas poucos centímetros de chão a frente de seus pés.
E voou, aterrissando, pálida, em uma foto de jornal do dia seguinte. No céu, um pássaro azul voava, livre.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Encontro

Caminhava apressada, tantos compromissos, os papéis reunidos na pasta apertada contra o peito, só não mais apertada do que o próprio coração. Ai, tanto por fazer, tinha sempre a impressão de que estava tudo pela metade. A rua movimentada, mas o local que tinha que ir era tão pertinho, decidiu ir andando - ah, se arrependimento matasse...
Não conseguia definir rostos, só passos e mais passos, alguns lentos que a irritavam, alguns rápidos demais que a irritavam mais ainda. Ia como quem não sente a vida, quem não pensa na ida, quem só quer chegar. Sim, chegar, era isso que ela queria até que, ai, não! Papéis espalhados voavam ao seu redor, espalhavam-se pelo chão, a moça também no chão pensava "céus, como sou desastrada!", e era mesmo, se não fosse, não estaria andando tão apressada, tão avoada, teria visto ao menos o buraco no qual prendera o pé, ah, como não vira aquilo? Dez minutos, dez minutos!
Então, olhou para cima, o que está feito, está feito, o jeito é correr mais pra chegar com o mínimo de atraso possível, até que, espere! Ah, ela não lembrava mais nem para onde ia, pois o reflexo do sol naqueles fios de cabelo ruivo a cegavam, mas era uma cegueira na qual ela permaneceria para sempre, se pudesse. Educado, ele a tomou pela mão, ainda a ajudou a arrumar alguns dos papéis teimosos que insistiam em fugir. Perguntou se ela estava bem, e ela quase respondeu "sim, nunca me senti tão bem na vida", mas limitou-se a confirmar com a cabeça, enquanto fingia organizar os papéis. E ele a olhava como quem vê um coração apertado, como se sentisse que aquela pressa toda tinha um motivo a mais, mas, para não parecer intrometido, nada disse, apenas ajudou aquela moça tão encantadoramente desastrada, tão bela, apesar de tão apressada.
Ela teria ficado a vida interia ali, esquecida de tudo o que tinha que fazer. Ele não largaria a mão dela jamais, se fosse dada a ele essa chance.
- Muito obrigada por me ajudar, mas estou com pressa, tenho que ir.
- Ah, por nada, não precisa agradecer.
E então ela foi, sabendo que jamais esqueceria aquela mão firme, mas delicada, e aqueles charmosos cabelos ruivos.
"E pela lei natural dos encontros
eu deixo e recebo um tanto"
Ele cantarolou baixinho.



- Você está atrasada, cinco minutos.
(ah, se você soubesse que ainda nem estou aqui, que acho que jamais estarei aqui, que meu lugar é ao lado do charmoso ruivo que deve estar em alguma rua por aí, e eu talvez jamais o veja novamente...)
- Desculpe, é que houve um contratempo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A ponte

Estranho o modo como a olhavam. Uma moça e uma caixa, o que havia de errado? Direito de ir e vir é constitucional, ela pensa. Mas isso não importa, aliás, nesse momento, opiniões alheias pouco importam. O que importa é o que ela tem que fazer. O que ela vai fazer.
Famílias passam por ela, todos tão felizes, aproveitando o último dia de mais um ano em suas vidas. Crianças correm, pessoas se abraçam, aquele conhecido vira, por alguns instantes, um grande amigo. É como se por um dia todos fossem o que deveriam ser o ano inteiro: felizes, unidos. Ela acha tudo aquilo tão superficial. Não que seja desnecessário, mas, em alguns momentos, parece falso demais. Pra onde vai toda essa bondade no resto do ano? Ninguém sabe, ninguém viu.
Mas, tudo bem, isso não importava. Ela continuava a caminhar decidida, até chegar onde queria. Enfim, depois de areia, pedras e pessoas, ela estava só. Ou melhor, quase. Havia ainda um mundo de lembranças, pessoas, cheiros, cores, tudo ali, naquela caixa. Era seu ano, era uma parte dela.
Olhando para o mar, ela pensava: "por que raios estou fazendo isso?". Mas ela sabia, sabia que precisava soltar-se, libertar-se de certas lembranças - boas ou ruins. Estava presa a muito tempo a coisas que, talvez, não fossem necessárias. Por mais que alguns desses momentos tivessem sido bons, mas de nada isso adiantava, agora: eram só lembranças, e o presente mostrava que aquilo tudo fora apenas uma fase, que as pessoas podem enganar-se.
Ela achava o mar tão belo. E, nessa beleza, ela decidiu jogar tudo aquilo, para que o mar levasse para locais desconhecidos todos aqueles restos, restos do que ela havia sido, restos do que ela talvez ainda fosse.
Começou pelas fotos: ah, aquele dia foi tão bom, e aquela festa?, olha, eu sempre achei que ele estava lindo vestido daquele jeito, foi uma surpresa agradável, esse momento eu quero esquecer, dancei a noite toda... Uma a uma ela olhava, momentos eram revividos e, em seguida, a foto seguia para a imensidão azul que bailava diante de seus olhos.
Achou aquele papel de chocolate que há tanto tempo havia guardado - era especial, ora essa! Depois de um tempo percebeu que especiais eram os sentimentos, e eles não eram tão fáceis assim de se obter. Não eram um pedaço de papel colorido que a gente guarda em uma caixinha achando que tem algum significado.
Aqueles bilhetes, ah, os bilhetes! A luz fraca ainda a permitia ler um por um, e eles traziam consigo riso, choro, susto e decepção. Poucas palavras, muitas coisas ditas. Um "sim" ou um "não" podiam significar mais do que uma carta inteira.
Então ela viu que o mar era como a sua vida: as ondas carregavam sal e recordações. Era seu ano ali, flutuando leve na sua frente. Ela estava decidida a mudar. Sabia que livrar-se daqueles objetos não apagaria as lembranças que ela carregava, mas esperava que, ao desfazer-se de algumas coisas, teria um pouco de sua dor e de sua frustração levadas pelo mar.
Agora eram apenas ela, o mar, a lua e um mundo de possibilidades. Ouviu a contagem regressiva ao longe, e os fogos de artifício começaram a iluminar sua solidão. Nunca se sentira tão bem acompanhada, pra falar a verdade. Era só ela e o que ela quisesse, porque, agora, era um recomeço.
Sua essência, a mesma. Suas possibilidades, infinitas. Seus erros, outros. Suas alegrias, intensas. Suas tristezas, profundas. Sua leveza, indescritível.



P.S.: Feliz 2010!

sábado, 29 de agosto de 2009

Um minuto, por favor.

Triste é perceber que a gente está deixando coisas simples passarem sem apreciar a beleza delas. Perceber isso foi tão súbito que me doeu. Doeu por eu não lembrar quando tinha sido a última vez que eu tinha olhado o céu, só pra apreciar o quanto ele era belo. A ocupação, os deveres, as cobranças, os compromissos, o cansaço, tudo se unindo como uma venda que me cega cada vez mais. Tudo pesando, desviando meu olhar do alto, prendendo-o ao chão, me fazendo caminhar contemplando meus próprios pés.
Quem me dera poder lembrar sempre que devo olhar pro alto, algumas vezes, e lembrar do quão prazerosas são as mais simples sensações, esquecer de tudo nem que por uns poucos minutos, manter a calma, a serenidade.
Mas o mundo vem me atropelando, e eu não consigo reagir a isso de imediato. Não me conformo com isso. Sufoco, engasgo, até conseguir, finalmente, gritar: grito interno, mas libertador. Desprendo-me das amarras que me prendem ao chão, o céu é meu. O fato de ter deveres a cumprir não pode tirar de mim meus pequenos prazeres. Eu não posso me privar de coisas que me fazem bem, não posso. Ninguém pode, aliás.
A gente vive tão apressado, faz sempre as mesmas coisas, mas, talvez, nunca pare para perceber os detalhes nossos de cada dia.
Você sai, cumpre seu ritual de todos os dias, mas, já parou pra reparar a cor do céu no percurso até a escola? Já disse "bom dia" a todos aqueles que passam por você sempre? Já viu a lua, tão imponente, no céu, ao voltar pra casa? Notar sutilezas custa tempo, tempo é dinheiro, custa dinheiro. Minutos preciosos não podem ser desperdiçados, é verdade. Porque, claro, um minuto vai fazer com que tudo vá pelos ares.
Minutos desperdiçados fazem tudo ir pelos ares, sim. Mas apreciar pequenas coisas, tão importantes, até, não é desperdício. Permitir-se sentir mais não é desperdício. Respirar não é desperdício.
Seria tão bom se a gente não corresse tanto, se o tempo não nos atropelasse tanto, se as coisas não apenas passassem, se o mundo não apenas zunisse, se a gente não se acomodasse, se coisas sérias não se tornassem comuns, se os dias fossem vistos como dias, não como horas. O mundo não pára, a vida não pára, e isso não é preciso: nós é que temos que parar e perceber que o tempo esta conosco, e não contra nós.

sábado, 27 de junho de 2009

Melodia de uma lembrança.

Voltar pra casa depois de um dia "daqueles" é realmente um exercício de auto-conhecimento. Quieta, respirando, vendo nas poucas estrelas do céu o brilho de uma vida inteira pela frente. Lojas, carros, tudo tão rápido, indo, vindo, como se cada um se resumisse a si mesmo, como se não houvesse uma ligação entre tudo. Vivendo dentro do próprio mundo, com as próprias angústias, os próprios medos, os próprios sonhos.
Mais da metade do caminho, e, de repente, meus olhos já tão sem esperança de encontrar algo o vêem. Ele, recostado na parede, violão nas mãos, olhos fechados, pensamento distante. Canta algo que não consigo ouvir, mas canta com saudade, com ternura, com felicidade, com um sorriso de quem revive em pensamento momentos tão alegres. Uma canção que o lembra uma alegria, uma tristeza, uma realização, um amor, não sei.
Cabelos brancos, as marcas da vida em seu rosto, o jeito pacato de quem já viveu tanto, de quem já teve pressa e, depois de tudo, vê apenas os carros passarem na rua fazendo a melodia da vida, como seus dedos passam pelas cordas do violão fazendo a melodia da saudade.
Em seu rosto já vivido pude ver o sorriso de quem se delicia com doces lembranças, aquelas que nos fazem ver que a vida vale a pena. Que fazer dela o melhor possível, arriscar-se, sorrir, amar, tudo isso vai fazer com que, após algum tempo, a gente possa se sentir bem ao lembrar tudo.
Foram cinco segundos em que senti que a minha vida ainda está apenas começando. E, ah, que eu possa um um dia fechar os olhos e lembrar com saudade de tudo!

domingo, 29 de março de 2009

Mão amiga

Sexta-feira, e no supermercado as filas maiores do que nos outros dias. Parece que necessidade de compras e cansaço caminham juntos, unidos pela falta de tempo nos demais dias da semana. Aquela cesta com o jantar não pesava tanto quanto os olhos, que lutavam para continuarem abertos.
Em meio a tudo isso, alguém se mostrava indiferente. Tinha um objetivo bem maior: brincar com aquela garrafa, gelada, não abria por mais que a mordesse.
Caiu.
Toma, querido, pegue aqui. A chupeta, agora, era seu passatempo.
Com licença. Pois não.
Passou para procurar uma revista, ah, achei, mas, espere. Sentiu o toque de uma pequenina mão segurar seu dedo. A mãe da criança sorria. O bebê parecia estar precisando de um conforto, ah, se soubesse que ele também precisava. Há quanto tempo precisava de uma mão amiga? Muito, e só agora viera a encontrar - e onde menos esperava achar. Dedos tão pequenos, mas que passavam tanta felicidade. Aquele olhar tão inocente, fazendo o bem, sendo gentil apenas porque era de sua natureza, ainda não perdera a pureza de que tanto careceria quando fosse mais velho.
Em um instante que pareceu eterno, o bebê confotava um homem feito. Homem que se sentiu frágil, não sabia como agir, se permitia aquele contato tão íntimo e constrangedor, ou se retirava a mão apressadamente. Olhava nervosamente para a mãe da criança, esta apenas se limitava a tirar as compras do carrinho.
O bebê o fitava, com aqueles grandes olhos que refletiam sua grande alma, alma pura de quem ainda não aprendeu que não se deve demonstrar assim os sentimentos ou que se deve conter as vontades. Bebê que não sabia que apenas ao segurar as mãos de alguém, havia gerado um pequeno distúrbio no equilíbrio anteriormente estabelecido.
O homem, sutilmente, afastou sua mão da pequena mãozinha, que ficou, ainda, a tatear em busca de algo, mas que acabou desistindo. Sorriu, saiu e não olhou para trás.
Dentro de si, torcia para que aquela criança viesse, futuramente, a ser uma mão amiga para muitas outras pessoas. Ah, meu Deus, não permita que a essência desse garoto se perca.


- R$14,90.
- Pode ficar com o troco.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Um quase.

Sentada vendo o tempo passar, ouvindo aquela rádio de sempre, com a cabeça encostada na janel do carro do mesmo jeito de sempre, ansiosa por um banho, ah, minha casa, será que os cachorros quebraram alguma coisa? De repente, aquele grande ônibus azul. Mais curioso que o ônibus por si só é a figura que o persegue. Mochila nos ombros, olhar desesperado e grandes passos, um grito, ele não pode deixá-lo escapar. O alcança. As portas, porém, não se abrem. Ele tenta, insiste, mas nada adianta. Ele se vai, reconhecendo o "quase lá".

Interessante como na vida há sempre esses "quase lá". Correr atrás de algo, desejar, precisar, tudo isso nem sempre parece suficiente para que se alcance. O pior: alcançar de maneira não plena. Como chegar perto, tocar e deixar escapar.
Pode ser um desejo, uma pessoa, uma pequena realização pessoal. Pior do que falhar é a dor do quase. Porque quase conseguir mostra que faltou muito pouco paara que o que era apenas idealizado se tornasse real, objetivos não alcançados, sejam eles grandes ou pequenos.
Falhar por muito mostra incompetência, falhar por pouco mostra capacidade insuficiente. Ou suficiente, mas não totalmente. Saber que o que se fez foi quase o bastante para que tudo saísse como o esperado, mas que por algum infortúnio não foi o suficiente é realmente pesaroso.
Ter que "deixar para a próxima" por muito pouco. Um pouco que, em outra situações, seria o quase nada. Sempre, sempre é quase nada, a menos quando se precisa desse pouco, seja esforço, empenho, ou até mesmo sorte.
Ter que esperar minutos, dias ou até mesmo meses por algo apenas por ter falhado na última hora.
Mas pior do que ter que esperar por tudo isso é conformar-se e não mais esperar. Falhar por muito pouco e deixar que isso seja suficiente para acomodação, aceitando a oportunidade perdida, sem lutar para que ela seja alcançada. Pior do que o quase é a acomodação.

Ele se foi, reconhecendo o "quase lá", mas em seus olhos via-se a determinação do "será da próxima vez".

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Passou.

Era aquele o momento pelo qual havia esperado a vida toda. Não acreditava, mas dentro de cinco minutos estaria realizando o sonho de toda uma vida. Todas as noites sem dormir, todas as refeições apressadas, todas as recusas que fizera aos amigos, tudo aquilo caminhava lentamente para um desfecho que só dependia dela.
A solidão, a tristeza, a euforia, a dúvida, a insegurança, tudo mesclava-se no bater do seu coração.
Cercada por desconhecidos ela parecia só. Ouvia apenas os ruídos de sua respiração. O vento abafado por tantos corpos parecia ferí-la, como uma última prova pela qual ela precisava passar antes de entrar e enfrentar o grande desafio que a aguardava.
'Abriram-se os portões', ela ouviu. Como que por instinto, dirigiu-se por aquele portão, passando por um corredor que ficava mais estreito a cada passo. Identificaram-na. Começou a caminhar.
O vento agora não era abafado, mas sim carinhoso, dançando por entre seus cabelos. Tinha um semblante sereno, olhos fixos em seu objetivo. Caminhava como que para salvar-se. Ou não.

Ao chegar, rostos conhecidos mesclavam-se a rostos antes jamais vistos. Respirava.
Enfim, começou. O que foram algumas horas pareceram durar uma eternidade. O sim e o não rodavam por entre sua cabeça, a respiração começava a incomodá-la. O coração batia calmo, mas que calma era essa?
Respirou.
Estava ali, na sua frente, havia esperado, evitado, mas por fim chegou a desejar que chegasse logo, que a espera findasse.
Respirou.
O que mais poderia fazer? Era ela, só ela. Não havia quem a guiasse, estava só e só permaneceria enquanto aquilo durasse. Torturou-se por alguns minutos. O coração ainda não refletia todo o seu nervosismo.
Respirou.
Pensamentos voavam soltos, conectando-se como que por acidente aqui e ali. Era isso, não havia mais o que fazer.

Agora caminhava pelo corredor, chegando ao seu fim e sentindo o vento no rosto. Recusou olhar para o próprio rosto refletido em uma janela. Não queria ver em si mesma a derrota.

O caminho de volta, ao contrário do que sempre ocorria, pareceu mais longo. Dava passos calmos, como quem olha o mundo pela primeira vez. Olhava para o céu, os raios de sol tocavam sua pele, o vento fazia seu cabelo dançar. Não ouvia nada, apenas caminhava. Olhos fixos no futuro, pensamento no passado. O presente era apenas o caminhar. Pessoas passavam, sequer ousava encará-las. Estava ocupada demais olhando para o céu e para as nuvens fofas.
Sorriu. De repente, gargalhou. Enfim, o que era aquilo? Era a certeza de que havia tentado, talvez fracassado, mas de que não perderia sua dignidade por aquilo. Aquilo não era suficiente bara definí-la ou derrotá-la. Ela estava apenas começando e, cedo ou tarde, seria mais forte do que os obstáculos que viriam.

Com os olhos marejados por lágrimas, continuou a caminhar, até o conforto dos braços acolhedores.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Fatos, fatos, fatos.

O que leva pessoas a viverem de bem com a vida (ou pelo menos mostrar que vivem)?
(Não) sou observadora, mas às vezes as coisas são, digamos, impossíveis de ser ignoradas. Era um homem gordo, na faixa de trinta anos, porte não atlético. Usava um vestido floral. Sim, um vestido! Além disso, meias coloridas (uma branca e uma preta), sandálias, um colar de conchinhas e outro com um grande coração verde. Ao entrar no ônibus, falava alto e gesticulava bastante. Dizia 'olá' para todos os passageiros, contava piadinhas e era muito simpático.
De repente, começou a distribuir cartões contendo um pequeno texto cada. Fiquei a pensar o que o motiva a fazer isso. Por dia, estar em diversos ônibus (o que, diga-se de passagem, é detestável), sorrir por mais que esteja triste ou vestir-se de maneira ridícula em prol de uma causa (que, de fato, é muito admirável).
E eu, sentada, observando as pessoas ao meu redor rindo de pequenas piadinhas. Olhando pela janela, vejo que o mundo vai, e não pára. Pessoas que não se cumprimentam. Gentileza? Nenhuma.
O gordinho (que se apresentou como Joyce) é um, apenas um. Não, ele é um. Um dentre tantos.









"Amor, palavra que liberta, já dizia o profeta".