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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Despedida.

Estava na hora, não havia mais porque adiar o inadiável. Vestiu-se e partiu. Ia com aquela certeza incerta que só os decididamente confusos trazem consigo, sabia exatamente o que fazer. Nas mãos, uma gaiola; no peito, sentimentos mil que transbordavam e pareciam querer sair por seus olhos. Caminhava lentamente, como que fazendo sua despedida sem dizer uma palavra. O pássaro a olhava curioso, mas, ao mesmo tempo, parecia estar contente e orgulhoso pela decisão que ela estava tomando. Os passos faziam um barulho macio na areia batida, nas folhas caídas, e ela continuava sua caminhada sem pressa, aproveitando os últimos momentos que restavam daquela companhia. Não sabia onde estava indo, mas sabia que o a mente e o coração saberiam ao chegar. O cheiro de chuva recém caída invadia seus pulmões, trazendo uma sensação prazerosa.
O pássaro aguardava lentamente, balançando naquela gaiola que havia sido por algum tempo seu lar, admirando aquela que fora sua companheira e estranhando o porquê de algumas lágrimas, tendo em vista que chorar, para ele, era algo estranho. Para consolar aquela que tanto amava, pôs-se a cantar a suave melodia que embalara tantos momentos que ambos haviam vivido juntos, para acalmar o coração de ambos.
Havia chegado a hora. Aquele era o lugar. Um campo, uma colina à frente, árvores sussurrando segredos aos seus ouvidos. O pequeno companheiro agora estava calado. Lembranças percorriam sua mente: risos, lágrimas, realizações, decepções, conquistas... muita vida, enfim. Abriu a portinha da gaiola. O pássaro, para quem voar nunca havia sido estranho, hesitou por um momento. Sentiu o pesar nos olhos da dona, mas, aos poucos, deixou-se ir, sentindo como despedida o toque macio de dedos em sua plumagem fofa. Voou para longe, sentindo a liberdade entre as asas. Entoou o canto mais lindo que ela já havia ouvido.
Após algum tempo, ela decidiu que era hora de partir. Mais um pássaro ela havia libertado, sabia que era assim que deveria ser: as coisas acabam para que outras possam começar. O pássaro ganhava os céus, a garota ganhava paz e a certeza de que mais pássaros viriam. Sua gaiola continuaria aberta para o próximo que se instalaria e passaria com ela mais um tempo, até que fosse hora de libertá-lo, também.
Nas asas e no coração do pássaro, ele e sua amiga voavam livres.

domingo, 10 de outubro de 2010

Últimas palavras

Daí ele olhou pra ela e perguntou assim, direto mesmo:
- Você se arrepende de alguma coisa?
- Só me arrependo do que não pensei em fazer. O que eu fiz está feito, o que eu não fiz passou. Ponto.
E mergulhou.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Nácar

As ondas iam, vinham, iam, vinham, iam, vinham, singelas, sorrateiras, simples, silenciosas, sussurrando segredos. Os pés marcavam a areia e a água apagava as pegadas recém deixadas - pudessem os erros serem apagados como as pegadas, que bom seria. Bom, fácil. Observava a imensidão de um céu azul cor de sonho, aquele azul limpo como os pensamentos de alguém livre. Além da maciez da areia fofa sob seus pés, sentia pequenos pontos de rigidez das pequenas conchas.
Os olhos agora estavam fixos naqueles pequenos pedaços que já foram casa, abrigo, proteção, mas agora divertiam crianças que buscam tesouros enviados por Netuno e pessoas que procuram distração. Sentou e começou a reunir, uma a uma, as conchas de que mais gostava. Talvez a vida inteira não passasse disso: escolher as conchas que mais se gosta. Do tipo de bolo aos amores. Ir procurando conchas que parecem interessantes: grandes, pequenas, brilhantes, redondas, lisas, coloridas, e tendo cuidado para ver antes que o mar as leve embora ou as enterre. Talvez as coisas sejam assim mesmo, talvez a gente vá pegando conchas até elas não caberem mais em nossas mãos e, um dia, alguma inevitavelmente cai e o mar leva. Ou enterra, quem sabe, e talvez nós voltemos a achar aquela conchinha novamente.
Pode ser que alguma concha em especial nos faça feliz. Pode ser que, por alguma distração, deixemos alguma concha imprescindível passar. Pode ser que tentemos pegar tantas conchas com as mãos que elas acabem sendo demais para carregar e nós tenhamos que deixar algumas para trás. Pensou em quantas conchas teria deixado cair, consciente ou inconscientemente. Será que havia escolhido as conchas certas para levar consigo? Será que o mar havia mesmo levado aquela concha ou ela estaria enterrada debaixo de seus pés, esperando pelo momento certo de ser redescoberta?
E o mar ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha, trazendo e levando lembranças, pessoas, cores e sons de uma vida inteira de busca pelas conchas perfeitas.

domingo, 15 de agosto de 2010

Vertiginosamente

Andava sempre assim: olhos fixos no rumo que tomava, expressão de quem vive plenamente e de que não liga muito para essas banalidades todas. Age como se quisesse esconder segredos que nem possui, buscando definir sentimentos que não sente, o fazendo da maneira mais triste possível. Triste não: ausente. Como se tudo fosse simplesmente infeliz, mas como se nada daquilo tivesse condições de deixar uma marca sequer. Tratava tudo com a maior indiferença possível, mesmo que, intimamente, não conseguisse ser indiferente. Como se cada uma daquelas coisas friamente desprezadas fizesse um pequeno corte, e que cada vez mais o número de cortes aumentasse e aumentasse e aumentasse indefinidamente. Como se viver fosse apenas uma grande vertigem, na qual se anda sem saber onde e como será o passo seguinte, na qual apenas o fim é certo. O meio é recheado de aventuras e desventuras que mente nenhuma é capaz de desvendar.
Consultava o relógio freneticamente, era um hábito seu, o único que conseguia denunciar toda a sua insegurança e que estampava em sua testa que não era indiferente. O ato de consultar nervosamente os ponteiros de cinco em cinco minutos denunciava que buscava sempre conter o tempo, como que por meio da noção das horas pudesse vigiar aquele que é o mais cruel inimigo dos que vivem, aquele que, inevitavelmente, manipula e decide tudo.
No seu andar alheio a tudo, pensava que a vida, o tempo, as coisas são, por vezes, como bolhas de sabão: a beleza deve ser apreciada, apreciada sem tocar, sem muita precipitação, pois um toque pode fazer com que tudo acabe mais rápido do que o que deveria. Tudo tem um fim, tudo. Seja efêmero ou não, tudo um dia acaba. Mas algum ato impulsivo, alguma falta de controle, pode fazer com que tudo acabe subitamente. Como no estourar de uma bolha de sabão.
Vivia como se fosse protagonista de uma grande história, a sua história. E era, de fato. Mas, por vezes, agia como se os demais também pensassem assim. Como se observassem seus passos, seu jeito, suas manias, suas expressões e tudo que compunha aquilo que era. Mas depois vinha a frustração de saber que não era assim: que o mundo era egoísta e que, por mais que algumas vezes fosse alvo da observação de alguém (provavelmente algum desocupado), não era assim o tempo todo. Não era como esperava, não era como queria.
Cabeça recostada no travesseiro, sinal de pensamentos cada vez mais soltos, mais altos. Voava em um céu particular de devaneios, mergulhava em mares de angústias e dúvidas, tendando escavar poços mais dentro de si, tentando achar um pouquinho da essência do que era. Entorpecia-se de sonhos, embriagava-se de vida, numa vertigem sem fim.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Universo particular

A menina olhava pro céu, com aqueles olhos fascinados de quem descobre a miudeza que se pode ser quando se comparada à imensidão que brilha diante de seus olhos. Tantas estrelas, tantos mundos, supernovas, buracos-negros, sistemas binários, nebulosas, cometas, meteoritos, planetas, poeira estelar, sóis e tudo mais. Nomes que ela aprendeu na escola, ou que sua curiosidade a permitiu conhecer.
A menina que carregava um universo dentro de si, cheio de medo, incerteza, alegria, insegurança, plenitude, prazer, dúvida, amor, amizade, tudo aquilo que parecia querer explodir dentro dela e fazer daquela menina uma fonte de luz inesgotável, como na explosão de uma estrela que não cabe mais dentro de si.
E diante daquele mundo tão grande, mas que não era nem um milésimo dos muitos mundos que existem, existiram ou que viriam a existir, a menina libertava as próprias estrelas, que saltavam dos olhos e buscavam abrigo próximo ao chão em vez de voar, tudo isso por conta de uma lei da qual, inevitavelmente, elas não conseguiam escapar.
Apesar de se sentir tão pequena, a menina nunca fora tão grande. Grande ao reconhecer que não era total, que não era gigante, mas que trazia em si uma alma que o era. Grande por reconhecer o quão pequena era, e, por isso, sabia do seu valor. Porque, por menor que parecesse aos olhos daquele universo assustador que parecia querer engolí-la com soa boca de escuridão e sombras, a menina sabia que era singular, e que sem ela o universo de bilhões de estrelas não seria o mesmo, seria um pouco mais vazio, um pouco menos brilhante, um pouco menos intenso, um pouco menos vivo, um pouco menos universo, de fato.
A menina parecia sentir a poeira de estrelas que pairava sobre ela e que pousava delicada e quase que imperceptivelmente sobre seus cabelos, sobre sua face, juntando-se às estrelas que saíam dos olhos da menina, que agora estendia as mãos tentando alcançar um pouco do que levitava sobre ela.
E então, ela percebeu que aquilo tudo era parte de um só ser, um ser que reunia universos grandes e pequenos, e que cada um, com sua singularidade e individualidade, era peça fundamental do quebra-cabeças chamado vida. Vida essa que a menina, agora tomada pelo próprio universo, nunca mais iria enxergar da mesma forma.

domingo, 27 de junho de 2010

Ele.

Só de olhar já conseguia ver toda a sua profundidade. Do fundo daqueles olhos que pareciam transbordar feito o mar não conseguia enxergar nada além daquela alma nua. Ah, aqueles olhos que pareciam gritar, como se a alma gritasse por liberdade, ele que sempre fora mais do que o mundo todo, mais do que aqueles cabeça, tronco e membros lhe permitiam ser. Contemplativo, poucas palavras, muito a dizer, mas ninguém para ouvir. Os que escutavam, apenas, o julgavam louco. Ele se julgava louco, louco por adentrar no poço mais profundo de si mesmo, por escavar no fundo do peito aquelas mágoas, aquelas dores, aqueles sorrisos, aqueles beijos, aquilo tudo que ele chamava de vida, vida que parecia não caber em quatro letras, apenas, que nem quatro décadas ou quatro séculos ou milênios, quem sabe, porque esse tempo não é todo tempo do mundo para quem carrega em si o peso de um universo.
Não há tempo capaz de comportar tamanhos pensamentos, pensamentos estes que lhe eram frequentes, mas não os pensamentos de todo dia, não, pensamentos mais profundos, aqueles que assustam muitos dos que ousam rondar por perto. Porque são como um poço: alguns não se atrevem sequer a chegar perto e já pedem para que outros não o façam - pobres destes, jamais puderam escolher por si mesmos se queriam chegar ao poço; outros chegam perto, experimentando mililitros de ousadia, aquela ousadia contida de quem faz um pouco do que parece errado apenas para, mais tarde, poder sentir um pouco daquela adrenalina contida; outros, ah, os outros, são aqueles que mergulham de cabeça no poço, ou que caem nele, não se sabe ao certo como, mas o fato é que vão tão fundo tão fundo tão fundo que aquela água de sabe-se lá o que os molha, os banha, os afoga, os afaga, os permite ir rumo ao desconhecido de dentro de cada um deles.
Estes, os que mergulham verdadeiramente, são raros. Claros e límpidos como as águas do poço em que se encontram submersos. E ele era um desses, ah, reconhecia isso pelos olhos, pelo brilho de mil sóis que eles exibiam para quem quisesse ver, embora quase ninguém quisesse. Mas eu quis, eu quis e desejei ardentemente que aquele brilho me visse, mas parece que olhos tão brilhantes assim não têm tempo de olhar: apenas vêem, apenas sentem, porque sentir é difícil e consome muito. E ele sabia sentir.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ao final das contas

Distraída, caminhava simplesmente pela trivialidade que era caminhar, muitos destinos para a mente e nenhum para os pés. Eis que entre pessoas, sons, luzes, cores e vida, a viu. Perfeita em sua simplicidade. Única, bela, brilhante e só. Parou. Não conseguiria prosseguir sem levá-la consigo, porque nela se concentrava toda a perfeição do ser: ela era o que era, e era aquele momento, apenas.
Caminhou até ela, em passos tímidos, como quem se aproxima do desconhecido sem medo, mas temendo desajustar algum equilíbrio existente. Olhou-a por um tempo e pegou-a, enfim, do chão. Segurou-a firmemente entre os dedos: era sua. Custara a acreditar que a possuía. Todo aquele brilho aprisionado entre seus dedos. Enfim, sentiu-se dona daquela pequenina conta que continha o brilho de mil estrelas.
Levou-a consigo, caminhando apressada, atônita, temendo que alguém, de surpresa, a tirasse de suas mãos. Ao chegar em casa, buscou o lugar ideal para guardá-la, mas nada ali parecia capaz de suportar tamanho brilho. Até que viu a caixinha de música de sua avó, onde uma linda bailarina dançava graciosamente no centro. A pequena conta, agora, ocupava o lugar que outrora guardara valiosas jóias, mas que jamais valeriam tanto para a menina como o seu mais novo tesouro.
Ao sair de casa, no dia seguinte, parecia ainda mais distraída do que de costume. Até que, repentinamente, um desconhecido tomou sua mão e pôs nela um pequeno objeto. Sussurrou em seu ouvido palavras que agora seriam para sempre só suas e sumiu, como que envolto por uma leve brisa. Ao sentir o pequeno mundo em suas mãos, sentiu o coração palpitar. Não conseguia acreditar, era tão súbito, tão único, tão seu, aquele momento. Sentiu-se leve o restante do dia, uma leveza estranha, daquelas que, a qualquer momento, podem desaparecer. Mas não importava: para ela, cada conta aumentava um ponto na história da sua vida.
E assim seguiu vivendo, um dia após o outro, uma conta após a outra. Algumas eram grandes, brilhantes, pareciam maiores que o mundo, até. Outras, menores, mas com o brilho parecendo ainda mais intenso, concentrado naquele pequeno universo.Cada conta tinha sua história e sua importância.
Algumas haviam sido presentes de pessoas queridas; outras, desconhecidos a haviam dado até mesmo sem saber. Algumas pareciam surgir quando tudo parecia errado, outras eram pequenos frutos brilhantes do seu esforço.
E, cada vez mais, a caixinha de jóias estava mais cheia de cor, cores estas que pareciam enfeitar também o coração da menina, da moça, da mulher. Mulher que, agora, via o colorido das contas contrastar com o branco de seus cabelos. Tanta vida, tantas contas. Eram tantas que suplicavam para se unirem ainda mais.
Unidas pelo fio da vida, as contas formavam, agora, um colar multicolorido que adornava o pescoço da senhora, que dormia serenamente recostada na cadeira, embalada pela suave melodia que fazia a bailarina dançar.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

(his)estória sobre a (lou)cura.

- Ai, mais um dia daqueles
- que dá vontade de mostrar pro mundo o quanto eu sou louca
- cansativos, muito sansativos. Se ao menos as pessoas
- pudessem entender que os monstros estão aqui. Já tentei de tudo para que
- vissem o quanto me esforço, o quanto sofro. Desse jeito, só espero...
- me desespero, aliás. Louca, isso que você é.
- E loucamente espero que algum dia você possa parar com isso. Pode parar com isso?
- Por que? Vontade de não se ver refletida no espelho dos próprios olhos ou apenas
- Orgulho, fere meu orgulho ver você falando assim. Até parece que estou mesmo
- L-O-U-C-A! Olha nesses olhos, vê ou só enxerga?
- Sai daqui, sai daqui. Transtorno bipolar, é o que dizem.
- Quem diz? Os médicos, os colegas, os outros? Tão loucos quanto.
- Mal sabem o quanto gasto com remédios, e prefiro que continuem sem saber.
- Mal sabes tu os monstros que eles guardam dentro daqueles sorrisos plásticos, cabelos macios e dentes impecáveis.
- Monstra, monstra, sai daqui. Componha-se, componha-se.
- Sabe, não sei quem é a mais louca de nós duas.
- Não sou louca. Não sou louca. Não sou louca.
- Já imaginou se ficam sabendo?
- Não há o que saber.
- Estou certa, de novo. Sabe, "aceita tua loucura antes que seja tarde demais".
- Li isso um dia. Besteira.
- Talvez, pra você, seja tarde demais. Não precisa mais aceitar a loucura. Ela já é parte de você, e nada pode ser feito.
- Onde está a porcaria da caixa.
- A caixa com a tarja preta, parece com a que está sobre seus olhos, sobre os olhos deles, sobre os olhos de todos.
- É cura.
- Loucura, eu diria.
- A mulher séria, compenetrada, amável e simpática.
- A mulher dissimulada, fingida, cínica e medrosa.
- Medo de que pensem besteira, que achem que descobriram algo.
- Medo de descobrir as besteiras que pensa.
- Bobagem, tudo isso.
- E nunca falou tão sério na vida.
- Estou louca.
- Estamos loucas.
- Estão loucos.
- Loucura é um estado em que nos encontramos perdidas.
- Não me entrego.
- Não precisa. Ela já te possui.
- Aí grito, meio louca, meio rouca, meu Deus, meu Deus, me salve de mim!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O pássaro

Voar, aquele sempre havia sido o seu sonho. Como se, num bater de asas, tudo pudesse ser resolvido. Tantas vezes sentira esse impulso, uns mais, outros menos intensamente. Mas aquele pássaro engaiolado em seu peito sempre protestava, querendo liberdade, e ela sabia que a única maneira de libertá-lo plenamente era se ela mesma voasse, livre.
Só ela e o céu que outrora pertencera a Ícaro. Seriam suas asas frágeis como as dele? Do alto - quantos eram os andares? - nenhuma dúvida parecia ser capaz de trazer qualquer aflição.
O vento zunia em seus ouvidos, será que ouviria esse som ao voar? Não sabia. O som que ouvia agora era o de seu coração batendo descompassado no peito, acompanhado pelo farfalhar de asas inquieto do pássaro. O pássaro queria sair, as asas batendo, o coração batendo, o coração queria sair, ela queria voar.
Estava decidida como jamais estivera em nenhum outro momento de sua vida. Ela, que tanto queria voar, sentia apenas poucos centímetros de chão a frente de seus pés.
E voou, aterrissando, pálida, em uma foto de jornal do dia seguinte. No céu, um pássaro azul voava, livre.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Ensaio.

Olhando em seus olhos, pareço mais frágil do que jamais fui. Começo de modo decidido, firme, e digo: te amo. Sim, te amo, por que o espanto? Tenho o direito de amar, também, mesmo que tenha escolhido amar errado. Escolhi um amar tão sofrido, tão descompassado, tão bobo, tão meu.
Começamos bem, éramos um par, sempre fomos. "Completa ela, e vice-versa, que nem feijão com arroz", era o que diziam. Sim, ainda somos um belo par, uma pena não termos rendido tudo o que esperavam de nós, talvez por isso esteja sendo assim: porque esperaram demais, porque esperamos demais. Expectativas geram frustrações. O que era natural foi se tornando rotina, e há uma diferença entre isso.
Nunca tinha reparado, mas seus olhos me trazem paz... E aqui me encontro, contemplando essa paz que me fita sem saber o que pensar, prefere calar, certo, fique calado, é melhor assim, não me interrompa, eu termino de falar num instante. Por que estou falando, afinal? Sei que meus olhos expressam o que quero dizer bem melhor do que minhas palavras, mas, talvez, esteja falando para que você se distraia e não veja que em meus olhos ainda há o brilho da esperança de ser sua, e só sua; de ter você para mim, assim, simples, quieto, meu, como um dia eu pensei que você fosse. Mas acho que você nunca foi, nunca quis ser.
Olhe, me perdoe, entendi tudo sempre errado demais, me frustrei por querer, assumo. Você não deve ter feito nada de extraordinário, mas que mania boba essa que eu tenho de fantasiar, deu no que deu. Agora estou aqui, olhando pra você, querendo apenas fechar os olhos, beijar seus lábios e fingir que estamos bem, que somos um. Mas não somos, cansei de fingir, cansei de sofrer. Mas quero que saiba que, pra você, sempre haverá espaço nesse coração. Que serei sempre sua: sua amiga, sua conselheira, sua querida, sua. E só sua.

Daí eu saio e fecho a porta sem olhar pra trás, como que virando uma página da minha vida, da nossa vida. Como que pondo um ponto final naquilo tudo. Não olho pra trás ou por estar decidida demais, ou por medo de me arrepender. Só saberia o porquê se olhasse, mas não o fiz. E aí, acabou.
Fechar a porta não foi só a porta da sala, foi a porta que eu um dia abri pra você. Aquela porta pela qual você entrou, mas pela qual insiste em não sair.

- E aí, o que achou?
- Pena que, na teoria, a coisa é tão mais fácil... Mas a cena vai ficar realmente bonita.
- Ah, a cena... É...

sábado, 19 de dezembro de 2009

Guarda-chuva azul.

Silêncio. Os olhares já não eram os mesmos de outrora, aqueles olhares fascinados com o começo de algo tão bom. Agora, os olhos pareciam aflitos, preocupados, como se alguma coisa tivesse que ser dita, mas nenhum dos dois tinha coragem para isso.
- Lembra que era ali que você estava naquele dia?
- E você apareceu na hora certa. Você e seu guarda-chuva azul.
Mais silêncio. Sim, eles lembravam de tudo. Lembravam que, a partir do momento que ele tentou protegê-la da chuva, passaria a protegê-la de tudo mais. A chuva era apenas o princípio, ele a protegeria de todo o mundo, se fosse possível.
- Seu perfume me agradou. E, desde aquele tempo, você nunca mudou.
- Você disse que gostava. Não mudei por isso.
Primeiro o perfume, depois o sorriso. Nessa ordem, necessariamente. Mas, agora, eram os olhos dele que a chamavam, porque pareciam preocupados. Ela também devia parecer preocupada, pois ele a interrogava com o olhar, ela sentia.
- Se você vai dizer, diga logo. Não aguento mais esperar.
Dizer, dizer o que? Ele havia feito uma promessa. Prometera que era com ela que iria estar pra sempre. Que estaria com ela em qualquer momento, que as chuvas que viessem a cair seriam barradas por aquele guarda-chuva azul.
- Sabe que eu sempre vou gostar de você. É que...
- Não é mais como era, eu sei.
Ela sabia. Não queriam mentir um para o outro. Pior: não conseguiam mais mentir um para o outro, doía até mesmo pensar em fazer isso. Seria desonesto se algum dos dois o fizesse. Mais silêncio.
- Então...
- Eu quis te levar nos braços, lembra? Você que não deixou.
- Claro, eu mal te conhecia.
- E seu pé quebrado? Você não podia andar naquela chuva toda daquele jeito...
- Mas andei.
Teimosa como sempre, ela. E ele admitia: achava um charme toda aquela teimosia e o modo como ela arqueava as sobrancelhas ao argumentar.
Mais e mais e mais silêncio. A garçonete ia e vinha com seus cafés, sucos, chás. O mundo passava, e eles ali. Os pés dele se movendo nervosamente, os dedos dela tamborilando na superfície da mesa.
- Eu...
- Sabe que gosto de você. Por favor, nunca me deixe.
- ...nunca vou deixar você. Prometi, não foi?
- Mas tudo parece tão diferente agora. Você parece estar aqui mais por obrigação do que por vontade.
- Eu nunca faria isso, e você sabe. Seria te magoar ainda mais, coisa que eu jamais faria.
- É que...
- Vem.
O dinheiro ficou em cima da mesa - e a garçonete achou muito generosa aquela gorjeta toda. A chuva começava a cair, fininha, leve. E o guarda-chuva azul ficou recostado na cadeira, esquecido. Hoje, eles queriam sentir a água lavar suas almas.

sábado, 7 de novembro de 2009

Outono.

Sempre souberam que ela diferente. Frente às outras crianças, seu semblante sereno a fazia parecer mais velha, como alguém cujo corpo não acompanhou o ritmo do pensamento, ela que sabia que ser criança era uma prisão que teria que suportar.
Um dia, ao caminhar distraída, pensando na injustiça que é ter nove anos e opiniões reprimidas e julgamentos sufocados, viu algo tão belo que seus profundos olhos castanhos, talvez pela primeira vez na vida, brilharam como olhos de criança fascinada.
Aquilo era, talvez, a coisa mais linda que já havia visto. Olhar sério, nariz adunco, profundas olheiras, mas a elegância de um príncipe. Seu príncipe, assim o chamou. A seriedade dele parecia confrontá-la, ela que sempre era mais séria do que todos que a rodeavam. Sentiu em seu corpinho miúdo pulsações que não sabia explicar. Era como se o desejo de tê-lo a mantivesse viva, como se houvesse, enfim, encontrado um pouco de sentido na vida que levava.
Ele ali, sentado, observando os transeuntes, não a percebeu. Devia ser, para ele, apenas mais uma garotinha entre as folhas amareladas. Isso a feria, mas, tudo bem, era uma dor suportável. Enquanto pudesse olhá-lo e vê-lo, tudo seria suportável.
Uma voz a chamou, não, ela não queria ir, teve que ir, súplica alguma foi suficiente para amansar o olhar feroz da mãe, que a comandava.
Sozinha, percebeu que vê-lo uma vez, apenas, não era suficiente. Seu magro corpo tremia ao pensar que aquela teria sido a primeira e única chance que tivera de contemplar seu amado. Adormeceu entre lágrimas e soluços.
No dia seguinte, atônita, buscou naquela tarde seu sentido e eis que o viu: sério, centrado, elegante e seu. Parecia cumprir o mesmo ritual todos os dias: sentar naquele banco da praça e contemplar cada sutileza que a vida poderia trazer-lhe.
Dia após dia, ela se dava o direito de observá-lo. Era como se um prazer a invadisse de uma forma única, como se todo aquele descontentamento em ser criança não houvesse, como se tivesse conseguido ir além.
Com o passar do tempo, naquele rosto de homem sério começaram a surgir marcas da vida, acompanhando as olheiras que ele sempre levava consigo. E o corpo de menina passou a corpo de moça.
Moça essa que se desesperava ao pensar que aquilo pudesse chegar ao fim. E se, por alguma obra do destino, um dia ele não viesse? Tinha que imortalizá-lo de alguma forma. Não permitiria que dele restassem apenas frágeis lembranças, as quais poderiam ser levadas por qualquer leve sopro de esquecimento.
Pôs-se a tentar eternizá-lo no branco de uma tela, tal qual a tela que eram seus olhos que refletiam a imagem daquele homem todos os dias, até aquele em que ele foi para nunca mais voltar, ela sabia, sabia que aquela era a última vez que o veria, que aquele último suspiro dado por ele antes de ir para casa era um suspiro de adeus. Ela, porém, nada disse, sequer um adeus, para não desfazer o encanto que, há anos, os envolvia, uma aura de segredo e silêncio.
Passou a querer, então, a imagem perfeita daquele que era sua razão de existir. Não saía mais, dedicando-se inteiramente à imagem dele, imagem essa que deveria ser tão plena quanto ele fora um dia.
E as horas viraram dias; os dias, meses; os meses, anos. E a moça virou mulher, mulher tão dedicada ao seu propósito que nem a fome, a sede ou a ameaça da loucura pareciam poder afetá-la.
Em uma noite, então, sentiu que havia terminado. Sim, ali estava ele, tão sério, com aquele olhar que um dia encantou a menina e que hoje encantava a mulher. Estava ali, tão perto que podia tocá-lo, tão real que podia sentí-lo.
Então, depois de tanto tempo, ela conseguiu dizer, apenas:
- Me leve.
E os dois saíram a caminhar sobre folhas amareladas.

domingo, 18 de outubro de 2009

Iceberg.

Bom dia, tudo bem?, e a família, a gasolina subiu, meu Deus, onde o mundo vai parar?, acho que esqueci a carteira, me empresta sua blusa?, acho que sábado é um bom dia, pizza lá em casa mais tarde?, choveu demais, eu pago a conta, me espera, mãe, eu quero!, meu horóscopo diz que hoje é um bom dia para o amor, comprei a maionese, olha aquela garota, já disse que odeio matemática?, vou ao banheiro, não esquece o carrinho, pega o agasalho que está frio, qual o pedido?, prefiro creme sem passas, vou pintar as unhas de vermelho, experimenta isso, vem comigo, sai daqui, hoje eu vou sair, adoro aquele poema, canta comigo aquela canção?, agora eu vou dormir...








A gente se mostra tão pouco. O resto é segredo, submerso no nosso mar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Tentação.

Eu estava andando. Em mim, ardia a vontade de que o mundo me pertencesse, já que eu parecia não poder pertencer a ele. Era uma caminhada tranquila, mas minha mente e meus pensamentos estavam em descompasso com meus pés, pois um turbilhão furioso de idéias perturbava minha aparente tranquilidade.
Olhos bem abertos, mente bem aberta, alma aberta ao máximo que minha desconfiança permitia. Queria sentir, queria ver, queria tocar, queria amar, queria saber, queria ousar, queria gritar, queria voar, mas limitei-me a andar e a pensar em coisas que pareciam não ter sentido algum.
Sabia que buscava algo, não sabia o que era. Em meu peito, um desassossego não me permitia ter paz. Buscava no mundo algo que em mim eu não conseguia achar, talvez por incapacidade, talvez por não querer encontrar. Medo. Sim, medo do que eu poderia encontrar. O universo de um ser é algo sempre surpreendente, e não creio estar pronta para meus próprios segredos.
Em busca de mim, olho para o céu. O céu, tão estrelado, parecia sorrir para mim, parecia querer que eu estendesse a mão e tocasse em todos aqueles pontos de luz e esperança. Tentador. Já que meu mundo não se abria em flor para mim, não me permitia descobrir seus segredos, tudo era só mistério, por que não o céu?
Estendi a mão como uma criança que se aventura em algo que ela não desconfia que pode ser arriscado, apenas faz. Toquei o céu, e, ah, quantas estrelas caíram sobre mim!
Era chuva de brilho, era chuva de luz, era chuva de vida. Meus cabelos, minhas mãos, todo o meu corpo refletia sonho, tudo tão intenso, o brilho de uma vida inteira, o brilho de tudo que almejo, de tudo que desejo.
Imersa em estrelas, minha alma mostrava-se através dos meus olhos, mostrava-se de forma tão intensa que transbordou. E de minhas lágrimas surgiam mais estrelas, acompanhadas das que surgiam a cada sorriso meu. Eu era toda luz, toda sonho, era tudo e não era nada. Era infinita, era plena, era única, era eu.
E então ganhei asas, me aventurei, ri, chorei, descobri, sonhei, tudo de uma vez só, como quem se farta de delícias para a alma.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O impulso ainda pulsa.

Impulso que me doma, me faz dizer o que não podia, crer no que não devia, agir como jamais ousaria. Impulso que me move, que traz à tona meus anseios e angústias, que faz com que, por um momento, eu tenha atitudes que sempre me policiei tanto pra não ter.
Impulso que me arranca as palavras da boca, palavras essas que às vezes ferem, às vezes elogiam, às vezes iludem, às vezes destroem, às vezes supreendem.
Mas piores são aquelas que expressam apenas verdades. Verdades essas que deveriam ser um segredo trancado eternamente, mas que, no tempo de um suspiro, saem como pássaros que anseavam por liberdade. Ah, são essas as verdades que tanto me comprometem, que tanto me fazem ter tanto zelo pelo que digo. Que fazem com que eu queira que, apenas por um momento, eu pudesse voltar no tempo e fazê-las voltar pra o local de onde nunca deviam ter saído.
Mas, o que seria do mundo sem o impulso? Tantas verdades ficariam caladas, trancadas apenas em um coração que, talvez, não mais suporte ter que guardá-las consigo. Tantos beijos de amor sinceros e inesperados seriam contidos, freados simplesmente porque se acha que eles não devem acontecer. Tantas respostas que não seriam dadas apenas pelo fato de que elas podem magoar alguém, mas que magoam muito mais quem não as diz. Tantos gritos seriam sufocados, apenas por serem incovenientes, inadequados.
O impulso é o que move a vida, é o que faz com que pequenos atos possam mudar uma história, um destino. Saber controlar a impulsividade é um dom, mas saber deixá-la fluir livremente de vez em quando é uma virtude.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Porque permanecer ali era tudo o que tinha que fazer, embora sua mente ousasse libertar-se. Ali, naquela praça, era apenas mais uma a passar, por mais que o vestido dourado a destacasse em meio à multidão que ria. Buscava algum ponto para fixar o olhar, já que era impossível fazer com que os pensamentos permanecessem quietos.
Mostrava no olhar a angústia da espera, esperava por não-sei-o-quê, ela mesma nem sabia mais o que vinha ao seu encontro. Estaria ela esperando por algo que não vem? Adiava o encontro consigo mesma o máximo que podia, afinal, não sabia que danos aquilo poderia causar.
No parque, crianças faziam a vida parecer mera formalidade, como se o importante fosse apenas os giros que a roda-gigante dava no ar, altos e baixos. Os mesmos altos e baixos que ganhavam sentido tão diferente com o passar dos anos, e ela sabia disso.
E ela olhava o parque, as crianças, ouvia risos, sentia a alegria no ar, pairando sobre sua cabeça. Seus olhos mostravam que sua alma ainda guardava a pureza de outrora, por mais que seu corpo, seus atos e seu nome a fizessem parecer tão impura.
Parecia triste, parecia tensa, parecia preocupada. Mas, por instantes, pareceu ser novamente criança, que saltava em uma cama elástica, que dava voltas no carrossel, ah, voltas davam sua vida, agora que era mulher feita. Dos carroséis, guardava apenas doces lembranças, que agora amargavam sua boca com o gosto da saudade do que jamais volta.
A maquiagem dos olhos, agora, estava borrada pelo sal da lembrança. E o que faria? Escondia-se por trás da maquiagem, mas de quem buscava se esconder: dos outros ou dela mesma?
Passos lentos, buscando fazer o tempo passar mais devagar. Se soubesse que sentiria tanta falta dos momentos da infância, teria buscado não apressar a vida, não crescer tão depressa. Ficava a pergunta: ela teria apressado a vida ou a vida a teria apressado? Tantas decisões, tantas mudanças, tão pouco tempo. E de menina a moça, de moça a mulher, tudo no tempo de um suspiro, último suspiro de sua infância.
Agora, apenas lembranças permaneciam, e delas não queria se desfazer, por mais que a dor fosse quase insuportável. Tentava esconder isso de todos, mas dela mesma não podia fugir. Implacável, ela estaria sempre a saber todos os seus segredos.

Um carro azul, um boa noite, foi-se.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Eu sei, não é assim.

Tinha tudo pra ser e não era. Impressionante. Admirável. Sabia que era desejado, querido, quase inalcançável para algumas. Mas era simples, gentil. Era simples, simplesmente.
Caminhava despreocupadamente, sem a pretensão de prender minha atenção. Tarde demais, eu já estava alheia, percebendo apenas aqueles passos, aquele sorriso, aquele jeito despreocupado, incrivelmente leve.
Passou, olhou-me como quem olha alguém de passagem, desviou o olhar. Seria eu tão repugnante? Estaria ele buscando não perder-se em mim? Arrisco na primeira opção. Mais aceitável.
Ah, quisera eu ter sabido o que sei dele agora. Certamente teria ousado. O abordaria dizendo alguma tolice cuidadosamente planejada para que pudesse vir a gerar algum diálogo.
Tolices foram ditas, diálogos gerados, nada mais.
Para ele, mais uma. Para mim, mais um (digo isso com um certo pesar, de fato). Mas eis como o destino (ou seja lá o que for) quis.
Não era pra ter sido assim. Aliás, uma série de outras coisas não eram pra ter sido como foram. Grãos de amor perdidos pelo caminho, que triste. Mas aconteceu, e nunca saberei como seria se tivesse ocorrido tudo de outra maneira. Talvez eu não fosse essa que aqui escreve. Não, com certeza não seria. A vida é cheia dessas coisas, vai entender.
Adorável, ele continua.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Passou.

Era aquele o momento pelo qual havia esperado a vida toda. Não acreditava, mas dentro de cinco minutos estaria realizando o sonho de toda uma vida. Todas as noites sem dormir, todas as refeições apressadas, todas as recusas que fizera aos amigos, tudo aquilo caminhava lentamente para um desfecho que só dependia dela.
A solidão, a tristeza, a euforia, a dúvida, a insegurança, tudo mesclava-se no bater do seu coração.
Cercada por desconhecidos ela parecia só. Ouvia apenas os ruídos de sua respiração. O vento abafado por tantos corpos parecia ferí-la, como uma última prova pela qual ela precisava passar antes de entrar e enfrentar o grande desafio que a aguardava.
'Abriram-se os portões', ela ouviu. Como que por instinto, dirigiu-se por aquele portão, passando por um corredor que ficava mais estreito a cada passo. Identificaram-na. Começou a caminhar.
O vento agora não era abafado, mas sim carinhoso, dançando por entre seus cabelos. Tinha um semblante sereno, olhos fixos em seu objetivo. Caminhava como que para salvar-se. Ou não.

Ao chegar, rostos conhecidos mesclavam-se a rostos antes jamais vistos. Respirava.
Enfim, começou. O que foram algumas horas pareceram durar uma eternidade. O sim e o não rodavam por entre sua cabeça, a respiração começava a incomodá-la. O coração batia calmo, mas que calma era essa?
Respirou.
Estava ali, na sua frente, havia esperado, evitado, mas por fim chegou a desejar que chegasse logo, que a espera findasse.
Respirou.
O que mais poderia fazer? Era ela, só ela. Não havia quem a guiasse, estava só e só permaneceria enquanto aquilo durasse. Torturou-se por alguns minutos. O coração ainda não refletia todo o seu nervosismo.
Respirou.
Pensamentos voavam soltos, conectando-se como que por acidente aqui e ali. Era isso, não havia mais o que fazer.

Agora caminhava pelo corredor, chegando ao seu fim e sentindo o vento no rosto. Recusou olhar para o próprio rosto refletido em uma janela. Não queria ver em si mesma a derrota.

O caminho de volta, ao contrário do que sempre ocorria, pareceu mais longo. Dava passos calmos, como quem olha o mundo pela primeira vez. Olhava para o céu, os raios de sol tocavam sua pele, o vento fazia seu cabelo dançar. Não ouvia nada, apenas caminhava. Olhos fixos no futuro, pensamento no passado. O presente era apenas o caminhar. Pessoas passavam, sequer ousava encará-las. Estava ocupada demais olhando para o céu e para as nuvens fofas.
Sorriu. De repente, gargalhou. Enfim, o que era aquilo? Era a certeza de que havia tentado, talvez fracassado, mas de que não perderia sua dignidade por aquilo. Aquilo não era suficiente bara definí-la ou derrotá-la. Ela estava apenas começando e, cedo ou tarde, seria mais forte do que os obstáculos que viriam.

Com os olhos marejados por lágrimas, continuou a caminhar, até o conforto dos braços acolhedores.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

História de uma gata

No meu caminhar, encontro-me desperta enquanto todos dormem, ou tentam, pelo menos. Insones somos nós, gatos e poetas. Ao olhar ao redor, deparo-me com cenas comuns, rua vazia, telhado vazio, casas aparentemente vazias, por vezes tão vazias quanto os que as habitam. Mas meu passeio está apenas começando.
O doce vento da madrugada vem acariciar-me o pêlo e fazer cócegas em meu bigode. Se disser que não gosto disso é mentira. Sinto-me amada, recebendo os carinhos de um dono que não possuo.
Engraçado como as coisas mudam sem as pessoas por perto. Elas, sempre tão agitadas e frenéticas, vivendo como em um ciclo. Deve ser chato ser humano. Nascer, crescer, às vezes se reproduzir e, inevitavelmente, morrer. Ah, tantos deles se resumem a isso. Chego a ter dó.
Daqui de cima consigo ver o que eles mesmos não enxergam. Parecem não se importar com o fato de a vida, tão breve, lhes escorrer pelas mãos. E eles insistem em jogar fora o tempo como quem joga fora algo banal como uma latinha de refrigerante. Mal sabem o quanto cada segundo lhes é valioso. Insistem em pensar que nada se perde, e que o mundo é e sempre será infinito. Estragam o quanto podem, sem perceber o mal que aquilo lhes faz.
Sonham tanto, realizam tão pouco. Claro, não me refiro a todos eles. Não se pode julgar o todo apenas pela maior parte (embora ela - por ser maioria - faça com que aspectos da minoria não sejam levados em consideração).
Um rato passa por mim furtivamente. Droga, não consegui pegá-lo. Ah, quantas mais noites insones terei que suportar? As luzes da cidade me trazem aconchego. Gosto de observá-las, sinto como se elas me iluminassem até o mais profundo de mim, elas me trazem paz.
Sinto o início da manhã chegar. Poetas, cronistas, bêbados, trabalhadores, desocupados e afins, gatos, insones do mundo, sintam em seus rostos o leve toque da luz matinal. Creio que seja hora de dormir. Ou tentar, ao menos.




Raios! Eu havia cochilado. Observo o pequeno relógio tiquetaqueando sobre a mesinha de cabeceira: seis horas. E vejo por aqui vestígios daquela gata preta que sempre me visita em busca de restos de comida. Ela veio, hoje.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

(Sem) rumo.

Porque quando ela caminhava, parecia que o mundo inteiro não passava de mera formalidade. O vento nos cabelos, o sol fazendo seu rosto corar, os pés definindo um rumo que poderia não fazer sentido algum.
Pensamentos soltos borboleteavam por sua mente, e quanto menos complexos, melhor. Ah, como era doce viver.