Não preciso que anjos sussurrem no meu ouvido: sei que vens. Nem brumas, nem sinos, nem varais, nem sóis. Não preciso escutar teus sinais: posso senti-los. Não precisa chegar em uma manhã de domingo, e sei que não chegarás assim. Chegarás numa tarde quente de segunda-feira, entre compromissos e sorrisos e sons e vida, vida pulsando ao redor da tua chegada. Não ouço: sei. Sinto.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
domingo, 10 de outubro de 2010
Últimas palavras
Daí ele olhou pra ela e perguntou assim, direto mesmo:
- Você se arrepende de alguma coisa?
- Só me arrependo do que não pensei em fazer. O que eu fiz está feito, o que eu não fiz passou. Ponto.
E mergulhou.
- Você se arrepende de alguma coisa?
- Só me arrependo do que não pensei em fazer. O que eu fiz está feito, o que eu não fiz passou. Ponto.
E mergulhou.
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Quando os sinais se desligam.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Nácar
As ondas iam, vinham, iam, vinham, iam, vinham, singelas, sorrateiras, simples, silenciosas, sussurrando segredos. Os pés marcavam a areia e a água apagava as pegadas recém deixadas - pudessem os erros serem apagados como as pegadas, que bom seria. Bom, fácil. Observava a imensidão de um céu azul cor de sonho, aquele azul limpo como os pensamentos de alguém livre. Além da maciez da areia fofa sob seus pés, sentia pequenos pontos de rigidez das pequenas conchas.
Os olhos agora estavam fixos naqueles pequenos pedaços que já foram casa, abrigo, proteção, mas agora divertiam crianças que buscam tesouros enviados por Netuno e pessoas que procuram distração. Sentou e começou a reunir, uma a uma, as conchas de que mais gostava. Talvez a vida inteira não passasse disso: escolher as conchas que mais se gosta. Do tipo de bolo aos amores. Ir procurando conchas que parecem interessantes: grandes, pequenas, brilhantes, redondas, lisas, coloridas, e tendo cuidado para ver antes que o mar as leve embora ou as enterre. Talvez as coisas sejam assim mesmo, talvez a gente vá pegando conchas até elas não caberem mais em nossas mãos e, um dia, alguma inevitavelmente cai e o mar leva. Ou enterra, quem sabe, e talvez nós voltemos a achar aquela conchinha novamente.
Pode ser que alguma concha em especial nos faça feliz. Pode ser que, por alguma distração, deixemos alguma concha imprescindível passar. Pode ser que tentemos pegar tantas conchas com as mãos que elas acabem sendo demais para carregar e nós tenhamos que deixar algumas para trás. Pensou em quantas conchas teria deixado cair, consciente ou inconscientemente. Será que havia escolhido as conchas certas para levar consigo? Será que o mar havia mesmo levado aquela concha ou ela estaria enterrada debaixo de seus pés, esperando pelo momento certo de ser redescoberta?
E o mar ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha, trazendo e levando lembranças, pessoas, cores e sons de uma vida inteira de busca pelas conchas perfeitas.
Os olhos agora estavam fixos naqueles pequenos pedaços que já foram casa, abrigo, proteção, mas agora divertiam crianças que buscam tesouros enviados por Netuno e pessoas que procuram distração. Sentou e começou a reunir, uma a uma, as conchas de que mais gostava. Talvez a vida inteira não passasse disso: escolher as conchas que mais se gosta. Do tipo de bolo aos amores. Ir procurando conchas que parecem interessantes: grandes, pequenas, brilhantes, redondas, lisas, coloridas, e tendo cuidado para ver antes que o mar as leve embora ou as enterre. Talvez as coisas sejam assim mesmo, talvez a gente vá pegando conchas até elas não caberem mais em nossas mãos e, um dia, alguma inevitavelmente cai e o mar leva. Ou enterra, quem sabe, e talvez nós voltemos a achar aquela conchinha novamente.
Pode ser que alguma concha em especial nos faça feliz. Pode ser que, por alguma distração, deixemos alguma concha imprescindível passar. Pode ser que tentemos pegar tantas conchas com as mãos que elas acabem sendo demais para carregar e nós tenhamos que deixar algumas para trás. Pensou em quantas conchas teria deixado cair, consciente ou inconscientemente. Será que havia escolhido as conchas certas para levar consigo? Será que o mar havia mesmo levado aquela concha ou ela estaria enterrada debaixo de seus pés, esperando pelo momento certo de ser redescoberta?
E o mar ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha, trazendo e levando lembranças, pessoas, cores e sons de uma vida inteira de busca pelas conchas perfeitas.
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Momentos singulares,
Quando os sinais se desligam.
domingo, 15 de agosto de 2010
Vertiginosamente
Andava sempre assim: olhos fixos no rumo que tomava, expressão de quem vive plenamente e de que não liga muito para essas banalidades todas. Age como se quisesse esconder segredos que nem possui, buscando definir sentimentos que não sente, o fazendo da maneira mais triste possível. Triste não: ausente. Como se tudo fosse simplesmente infeliz, mas como se nada daquilo tivesse condições de deixar uma marca sequer. Tratava tudo com a maior indiferença possível, mesmo que, intimamente, não conseguisse ser indiferente. Como se cada uma daquelas coisas friamente desprezadas fizesse um pequeno corte, e que cada vez mais o número de cortes aumentasse e aumentasse e aumentasse indefinidamente. Como se viver fosse apenas uma grande vertigem, na qual se anda sem saber onde e como será o passo seguinte, na qual apenas o fim é certo. O meio é recheado de aventuras e desventuras que mente nenhuma é capaz de desvendar.
Consultava o relógio freneticamente, era um hábito seu, o único que conseguia denunciar toda a sua insegurança e que estampava em sua testa que não era indiferente. O ato de consultar nervosamente os ponteiros de cinco em cinco minutos denunciava que buscava sempre conter o tempo, como que por meio da noção das horas pudesse vigiar aquele que é o mais cruel inimigo dos que vivem, aquele que, inevitavelmente, manipula e decide tudo.
No seu andar alheio a tudo, pensava que a vida, o tempo, as coisas são, por vezes, como bolhas de sabão: a beleza deve ser apreciada, apreciada sem tocar, sem muita precipitação, pois um toque pode fazer com que tudo acabe mais rápido do que o que deveria. Tudo tem um fim, tudo. Seja efêmero ou não, tudo um dia acaba. Mas algum ato impulsivo, alguma falta de controle, pode fazer com que tudo acabe subitamente. Como no estourar de uma bolha de sabão.
Vivia como se fosse protagonista de uma grande história, a sua história. E era, de fato. Mas, por vezes, agia como se os demais também pensassem assim. Como se observassem seus passos, seu jeito, suas manias, suas expressões e tudo que compunha aquilo que era. Mas depois vinha a frustração de saber que não era assim: que o mundo era egoísta e que, por mais que algumas vezes fosse alvo da observação de alguém (provavelmente algum desocupado), não era assim o tempo todo. Não era como esperava, não era como queria.
Cabeça recostada no travesseiro, sinal de pensamentos cada vez mais soltos, mais altos. Voava em um céu particular de devaneios, mergulhava em mares de angústias e dúvidas, tendando escavar poços mais dentro de si, tentando achar um pouquinho da essência do que era. Entorpecia-se de sonhos, embriagava-se de vida, numa vertigem sem fim.
Consultava o relógio freneticamente, era um hábito seu, o único que conseguia denunciar toda a sua insegurança e que estampava em sua testa que não era indiferente. O ato de consultar nervosamente os ponteiros de cinco em cinco minutos denunciava que buscava sempre conter o tempo, como que por meio da noção das horas pudesse vigiar aquele que é o mais cruel inimigo dos que vivem, aquele que, inevitavelmente, manipula e decide tudo.
No seu andar alheio a tudo, pensava que a vida, o tempo, as coisas são, por vezes, como bolhas de sabão: a beleza deve ser apreciada, apreciada sem tocar, sem muita precipitação, pois um toque pode fazer com que tudo acabe mais rápido do que o que deveria. Tudo tem um fim, tudo. Seja efêmero ou não, tudo um dia acaba. Mas algum ato impulsivo, alguma falta de controle, pode fazer com que tudo acabe subitamente. Como no estourar de uma bolha de sabão.
Vivia como se fosse protagonista de uma grande história, a sua história. E era, de fato. Mas, por vezes, agia como se os demais também pensassem assim. Como se observassem seus passos, seu jeito, suas manias, suas expressões e tudo que compunha aquilo que era. Mas depois vinha a frustração de saber que não era assim: que o mundo era egoísta e que, por mais que algumas vezes fosse alvo da observação de alguém (provavelmente algum desocupado), não era assim o tempo todo. Não era como esperava, não era como queria.
Cabeça recostada no travesseiro, sinal de pensamentos cada vez mais soltos, mais altos. Voava em um céu particular de devaneios, mergulhava em mares de angústias e dúvidas, tendando escavar poços mais dentro de si, tentando achar um pouquinho da essência do que era. Entorpecia-se de sonhos, embriagava-se de vida, numa vertigem sem fim.
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quinta-feira, 8 de julho de 2010
Universo particular
A menina olhava pro céu, com aqueles olhos fascinados de quem descobre a miudeza que se pode ser quando se comparada à imensidão que brilha diante de seus olhos. Tantas estrelas, tantos mundos, supernovas, buracos-negros, sistemas binários, nebulosas, cometas, meteoritos, planetas, poeira estelar, sóis e tudo mais. Nomes que ela aprendeu na escola, ou que sua curiosidade a permitiu conhecer.
A menina que carregava um universo dentro de si, cheio de medo, incerteza, alegria, insegurança, plenitude, prazer, dúvida, amor, amizade, tudo aquilo que parecia querer explodir dentro dela e fazer daquela menina uma fonte de luz inesgotável, como na explosão de uma estrela que não cabe mais dentro de si.
E diante daquele mundo tão grande, mas que não era nem um milésimo dos muitos mundos que existem, existiram ou que viriam a existir, a menina libertava as próprias estrelas, que saltavam dos olhos e buscavam abrigo próximo ao chão em vez de voar, tudo isso por conta de uma lei da qual, inevitavelmente, elas não conseguiam escapar.
Apesar de se sentir tão pequena, a menina nunca fora tão grande. Grande ao reconhecer que não era total, que não era gigante, mas que trazia em si uma alma que o era. Grande por reconhecer o quão pequena era, e, por isso, sabia do seu valor. Porque, por menor que parecesse aos olhos daquele universo assustador que parecia querer engolí-la com soa boca de escuridão e sombras, a menina sabia que era singular, e que sem ela o universo de bilhões de estrelas não seria o mesmo, seria um pouco mais vazio, um pouco menos brilhante, um pouco menos intenso, um pouco menos vivo, um pouco menos universo, de fato.
A menina parecia sentir a poeira de estrelas que pairava sobre ela e que pousava delicada e quase que imperceptivelmente sobre seus cabelos, sobre sua face, juntando-se às estrelas que saíam dos olhos da menina, que agora estendia as mãos tentando alcançar um pouco do que levitava sobre ela.
E então, ela percebeu que aquilo tudo era parte de um só ser, um ser que reunia universos grandes e pequenos, e que cada um, com sua singularidade e individualidade, era peça fundamental do quebra-cabeças chamado vida. Vida essa que a menina, agora tomada pelo próprio universo, nunca mais iria enxergar da mesma forma.
A menina que carregava um universo dentro de si, cheio de medo, incerteza, alegria, insegurança, plenitude, prazer, dúvida, amor, amizade, tudo aquilo que parecia querer explodir dentro dela e fazer daquela menina uma fonte de luz inesgotável, como na explosão de uma estrela que não cabe mais dentro de si.
E diante daquele mundo tão grande, mas que não era nem um milésimo dos muitos mundos que existem, existiram ou que viriam a existir, a menina libertava as próprias estrelas, que saltavam dos olhos e buscavam abrigo próximo ao chão em vez de voar, tudo isso por conta de uma lei da qual, inevitavelmente, elas não conseguiam escapar.
Apesar de se sentir tão pequena, a menina nunca fora tão grande. Grande ao reconhecer que não era total, que não era gigante, mas que trazia em si uma alma que o era. Grande por reconhecer o quão pequena era, e, por isso, sabia do seu valor. Porque, por menor que parecesse aos olhos daquele universo assustador que parecia querer engolí-la com soa boca de escuridão e sombras, a menina sabia que era singular, e que sem ela o universo de bilhões de estrelas não seria o mesmo, seria um pouco mais vazio, um pouco menos brilhante, um pouco menos intenso, um pouco menos vivo, um pouco menos universo, de fato.
A menina parecia sentir a poeira de estrelas que pairava sobre ela e que pousava delicada e quase que imperceptivelmente sobre seus cabelos, sobre sua face, juntando-se às estrelas que saíam dos olhos da menina, que agora estendia as mãos tentando alcançar um pouco do que levitava sobre ela.
E então, ela percebeu que aquilo tudo era parte de um só ser, um ser que reunia universos grandes e pequenos, e que cada um, com sua singularidade e individualidade, era peça fundamental do quebra-cabeças chamado vida. Vida essa que a menina, agora tomada pelo próprio universo, nunca mais iria enxergar da mesma forma.
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